Tempos atrás um amigo, ao anunciar o nascimento da filha, escreveu: "ela é tão ela mesma!". Na hora achei muito fofis aquele jeito de fugir do lugar comum, que é a comparação com seus progenitores. Lembrei que sempre tive horror a essas comparações antes do meu pequeno nascer, e que teorizava pela individualidade do sujeito e blá, blá, blá. Mas daí virei mãe... E não tem jeito, mais cedo ou mais tarde, a gente se reconhece nos filhos!
Para mim o reconhecimento foi imediato!
No instante em que olhei para o Vicente, ainda preso ao cordão umbilical, sujo de sangue e nas mãos do médico, percebi que ele era a minha cara. Mais do que isso: ele tinha o mesmo nariz, envolto pelas mesmas bochechas que eu detestei por 33 anos, 11 meses e 28 dias!
E eu achei aquele rostinho que tinha tudo o que eu não gostava tão, tão, tão lindo que foi inevitável não me apaixonar.
Foi tão significativo aquele momento que o considero mais uma das lições que a maternidade me deu: através do meu filho pude enxergar em meus traços uma beleza que sozinha eu nunca tinha percebido.
Depois dele, me sinto mais segura e mais bonita. Hoje, me enche de vaidade ouvir de alguém, que nos vê pela primeira vez, "como ele é parecido contigo!". Sermos parecidos me dá a certeza que tenho em mim a beleza que enxergo nele. Meu amor de mãe contaminou meu amor próprio!
sábado, 29 de novembro de 2014
Uma extensão de nós - parte 1
sábado, 22 de novembro de 2014
Mas aí virei mãe e....
Porque até engravidar da Nina, aos 27 anos, eu ainda costumava me vestir com a capa da imortalidade da juventude, que bebe e dirige, que atravessa a rua correndo na frente dos carros, que volta da festa a pé sem medo de nada, que bebe até não poder mais abrir os olhos, enfim. Que fazia parte daquela que meu pai chama de "geração não dá nada". E desde que engravidei comecei a atravessar a rua somente na faixa de pedestres, com medo de alguma moto desavisada passar por cima de mim, e do meu bem mais precioso que tava bem guardado na minha barriga. Esse foi o primeiro sinal de que alguma coisa tinha mudado, e pra sempre.
Depois que ela nasceu - e quando, de fato, virei mãe - esse medo de algo acontecer a alguma de nós começou a me rondar. De ela se afogar dormindo e eu não ver, de eu ter alguma doença incurável e rápida e faltar - e veja só, ela só mamava no peito, como ia sobreviver? Óbvio que ia sobreviver, e bem, porque eu tenho uma família que sempre me apoiou muito, mas na minha cabecinha que pensava tanta bobagem SÓ EU poderia cuidar dela, dar banho, trocar as fraldinhas da melhor maneira possível.
Conforme ela foi crescendo, meus medos foram diminuindo. Entrou na creche, depois na escola, ginástica, visita as amiguinhas, e eu fui me acalmando. Aí veio a Olívia. Na gravidez eu enjoei tanto que nem tive tempo de ter medo. Mas depois que ela nasceu... ah, ele voltou. E ainda hoje às vezes me pego pensando o que será das minhas gurias se eu resolver virar estrela enquanto elas ainda precisam tanto de mim. Tenho uma amiga, a Cléia, que quando a mãe morreu ela me disse que com isso foi-se um pouco da sua história de vida. Eu nunca tinha pensado nisso, mas é verdade. Quando morre alguém próximo, essa pessoa leva junto uma boa parte da gente. Ainda quero ver muita coisa, delas e desse mundão doido.
Aí de vez em quando esse pensamento besta volta, algumas eu até choro. Mas não dura muito, porque logo a Olívia acorda e me chama, ou a Nina me pede alguma coisa pra comer.... Espero que elas continuem me interrompendo assim por muito tempo!
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Faça o que eu faço - e não o que eu digo
Muitos pais trabalham demais e quando estão em casa querem sossego - sem os filhos. "Dá um iPad pro guri sossegar, liga o Discovery Kids pra ela ficar quieta". E assim vai sendo cortada uma relação... E logo ali, dobrando a esquina da vida, a mãe vai querer saber da aula e o guri não vai responder porque, ai que saco, é sempre igual, não tô a fim de falar. O pai vai ter interesse no curso da filha, que tá com pressa pra sair e deixa pra conversar outra hora.
Veja só, eu também ligo a tv pras gurias verem e eu poder cozinhar em paz, deixo o computador liberado pra elas enquanto eu jogo Candy Crush quando tô no banheiro. Também sou gente, preciso de tempo pra mim. Só não posso querer o tempo TODO pra mim, porque ele passa tão-tão rápido, que quando eu finalmente ganhar a fase 74 as gurias já tão batendo a porta e indo pra rua.
Uma das coisas mais importantes que aprendi com a maternidade - a minha e a dos outros - é que se tu quer dar um bom exemplo, SEJA UM BOM EXEMPLO. Quer atenção? Dá atenção. Quer carinho? Dá carinho. Quer respeito? Respeita.
Não adianta exigir que teus filhos falem as palavrinhas mágicas (bom dia, por favor, obrigada, com licença, me desculpa, etc) se tu não usa nas coisas básicas dentro da tua casa. Já fui repreendida pela Nina quando ela era bem pequena com esse tipo de coisa. "Como se diz, mãe?" AH, É, OBRIGADA! "Muito bem, mamãe!". Hehehe!
Pense bem no que tu tá dando pro(s) teu(s) filho(s) hoje. Tudo depende de ti!
"And in the end, the love you take is equal to the love you make" (The Beatles)
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Dodói...
Depois que passa o período turbulento de noites mal dormidas, incontáveis visualizações no termômetro, tentativas frustradas de fazer a pequena pessoa comer direitinho... depois disso até parece que não foi assim TÃO ruim. Mas o durante... Ah, o durante, esse é péssimo, é infernal, é pedir a Deus e a todos os Santos, mesmo quem quase não tem fé, que a dor, a doença, o espirro sejam teus, e não do teu filho. E dói, dói porque não dá pra transferir pra gente.
(Imagem: Internet)
Lembro que o meu avó, Seu Antônio, hoje com 91 anos muito bem vividos, fazia mágica quando eu caía e me machucava. Primeiro ele dizia que sim, estava doendo muito, ele sabia. Então, ele iniciava o processo de "troca de dor": passava a mão no machucado (mas se tinha sangue era só por cima porque, ai, doía MUUUUITOOOOO), e do nada começava a sentir a minha dor. A mágica funcionava muito, porque eu começava a rir do jeito que ele se contorcia de dor ("Ai, essa doeu muito mesmo, ai ai ai"), e a dor ia passando assim, de mim pra ele. Era demais.
De vez em quando eu faço dessas, e olha, deve ser de família, porque em algumas vezes eu também consigo fazer essa mágica.
Mas recentemente a Olivia teve uma febre chatinha, acompanhada de muito ranho e pouca fome. Diagnóstico que infelizmente não aceita passe de mágica. Vale lembrar que minha família tá morando na Alemanha e que ainda não falamos o idioma local. Conseguimos uma consulta com um médico que fala inglês - as secretárias também! - para o mesmo dia que ligamos, meia hora depois. O cara nos tratou super bem, medicou corretamente a Oli e a secretária ainda nos enviou pelo correio a carteirinha de vacinação do Brasil e a amarelinha, que é usada aqui e que ela gentilmente atualizou pra gente.
Massa né?
((Só pra constar, os remédios foram retirados na Apotheke (farmácia), eram três e pagamos o valor simbólico de $0,69 por um deles. Aqui remédio para criança, em sua maioria, sai de graça com a receita médica. Pagamos impostos altos, mas vemos o retorno.))
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Ser mãe é...
Nesses meus quase dois anos de maternidade, tenho colecionado algumas definições. Procuro explicar minha (já não tão) nova realidade por meio de pequenas (in)conclusões do meu dia-a-dia. São, na verdade, diferentes situações que me fazem refletir sobre o exercício materno. Repetidamente, tenho dito que ser mãe é...
... dormir na pontinha do colchão enquanto o filho se esparrama pela cama.
... andar no banco de trás do carro.
... encaixar uma história do filho em qualquer tema.
... comer o resto da bolachinha babada.
... tirar tatu do nariz do filho, sem nojo, sem cerimônia.
... cantarolar música infantil, mesmo no trabalho.
... ficar acordada para ver o filho dormir.
... ter ciúmes da professora/cuidadora/ babá.
... não querer que o filho coma as porcarias que você come.
... recolher os brinquedos pela casa.
... deixar de olhar o mundo para olhar o filho no mundo.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Uma mãe possível
Demorei 33 anos para desejar ser a mãe do filho de alguém. Antes foi preciso eu entender que não fui um estorvo na vida profissional da minha própria mãe, mas sim uma escolha, para que ela vivesse o papel que mais havia aspirado. Depois precisei encontrar em um parceiro a mesma confiança que minha mãe tinha em meu pai, pois como se diz, marido e mulher se separam, pai e mãe não. Feito isso, eu estava pronta! Primeiro minuto de 2012, resolução de ano novo: ser mãe!
Meses depois, já com o resultado positivo em mãos, me dei conta de que tudo aquilo havia sido só o prelúdio! As neuras cresceram com a barriga e as certezas sumiram com a menstruação. Todo mundo tinha um conselho pra me dar, mas ninguém respondia meu questionamento mais urgente: eu vou ser uma boa mãe?
Com a chegada do pequeno a situação piorou. Além das neuras e dúvidas, eu tinha uma criança para cuidar, dezenas de tip-tops para lavar e passar, revistas de educação infantil para ler, e principalmente, aquela orda de mães que nunca (contavam que) erravam para me atormentar! Por que era tão difícil para mim, se para todas as outras era tão fácil?
Foi só com o exercício da maternidade (e com algumas sessões de terapia, confesso) que eu percebi que a melhor forma de acertar é procurar não errar. Só eu posso ser a melhor mãe para o meu filho, simplesmente, porque eu sou a mãe dele. E tem que querer muito estragar tudo para perder o amor dessas criaturinhas. Não ser uma mãe de comercial de TV não me faz menos mãe. Tenho aprendido a medir meu sucesso maternal pelo som da risada do meu filho.
É sobre isso que eu quero escrever aqui: minhas constantes tentativas de acertar, sem manual, sem regra, sem lições; apenas o desejo de ser uma mãe possível.
