segunda-feira, 4 de julho de 2016

Mãe sofre

Pois é. A gente, que é mãe, sofre. Muito. Todos os dias. Desde antes do filho nascer.
Lembro que a cada ultrassonografia me batia um misto de medo e culpa, "e se não tiver todos os dedinhos?", "e se aquele café açucarado que eu tomei fizer mal?", e se, e se, e se.. Pura bobagem. Até porque, mesmo que nasça sem um dedinho, com dedo a mais, de qualquer forma que ele vier: a gente vai amar o nosso filho. Sim, esse é o tal do amor incondicional que todos falam.

Mas aí nasce, corta o cordão umbilical, vai pra casa. Será que tá mamando direitinho? Será que não tá passando fome? Eu não sei se esse choro é de fome, de sede, de calor, de frio... Me disseram ainda no hospital, quando ganhei a Nina, que eu saberia diferenciar. E olha, não. Eu fui - com as duas gurias - no método de eliminação. Claro que o chorinho de manha de sono a gente sabe, mas esse nem precisa ser promovida a mãe pra entender. Os outros eu fui tentando. De vez em quando acertava.

Depois cresce e vai pra escolinha. A criança chora, no geral, por dois minutos. Tu vira as costas e ela esquece de ti. Tu vai trabalhar chorando, dá um pulo no banheiro pra assoar o nariz (e mente pros colegas que tá resfriada, porque se começa a contar que tá triste a vontade de chorar volta e não para nunca mais), passa o dia sofrendo. Busca a cria, que talvez dê mais uma choradinha quando te vê. Mas a profe garante que ela passou o dia super bem, se divertiu, fez amigos, comeu todos os legumes e verduras que nunca come em casa, comeu sozinha e ficou uns minutos sem fralda e não escapou pipi. Bem diferente do que acontece lá em casa, sei não, acho até que essa mulher tá me enganando.

Cresce mais. E a cada fase é como se um novo cordão umbilical fosse cortado. Mas é o nosso, o cordão que nos prende ao filho. Cada nova descoberta, cada degrauzinho da independência deles, que a gente por um lado comemora e por outro lamenta porque o tempo passa rápido demais, e sofre. Sofre, sofre.

A Nina sempre me pede que eu não chore, porque eu sou do tipo de mãe que chora por qualquer coisa. Aquela sensibilidade da gravidez só aumentou, e não sei ser diferente. Eu tento, ando com três, quatro pacotinhos de lencinhos de papel. Mas não há lencinho que dê conta. Eu choro até em reunião de escola, juro!

Aqui na Alemanha as crianças costumam fazer viagem de turma, de passar uns dois ou três dias fora. Acho super bacana, fico pensando se fosse na minha infância eu adoraria. (Tive uma viagem de turma, eu devia ter uns 14, 15 anos, foram todos pra Ilha do Mel. Todos menos eu, porque o meu pai não deixou. Mas hoje até entendo, eu era terrível!) Então, com dor no coração, deixei a Nina ir com a turma passar três dias na Klassenfahrt (viagem da turma). Ajudei a arrumar as roupas, comprei uns chocolatinhos, mandei água e o Junior e eu escrevemos cartinhas surpresa pra ela ler quando abrir a mala. Levei na escola e umas lagriminhas teimosas saltaram dos meus olhos quando nos despedimos.

Voltei pra casa sofrendo, enquanto ela (assim espero) se diverte com os colegas.


Mas isso é só o começo. Ano que vem, quando tiver quatro anos, é a vez do Klassenfahrt da Olívia. Quatro anos, quatro dias. Pois é. Vou terminar o texto do mesmo jeito que comecei: MÃE SOFRE!



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Aos futuros pais

Um dia descobri pelo falecido Orkut que um amigo da época de colégio tava "grávido". Eu não conhecia a namorada / esposa dele, mas me senti na obrigação de contar um pouquinho do que acontece do lado de cá.

Falei que estar grávida é lindo, maravilhoso, gostoso (sentir o bebê mexendo dentro de nós é algo incrível) mas que tem tantas outras coisas não tão legais que acontecem no durante, e especialmente no depois, que quase ninguém falava. Hoje até falam mais, mas de qualquer forma eu também quero dar meu pitaco. Te aquieta e lê.

E começa junto com a gravidez. Pode ser enjôo, pode ser mal estar, pode ser canseira. Sono, irritação ou choradeira - ah, hormônios, seus malvadinhos. Eu costumo dizer que gravidez é uma TPM de 9 meses. Sem contar a dificuldade de achar roupas, especialmente no início, quando a bunda e os peitos estão grandes, as pernas finas e a barriga é um misto de pancinha de chopp e má postura. E depois, mais pro final, quando levantar é tão difícil que a gente se sente uma baratinha virada com a casca pra baixo. Saca, a dificuldade de virar? E cruzar as pernas, então? I.M.P.O.S.S.Í.V.E.L!

Bom, daí chá de fraldas, as tias do interior com todas as receitas pra criança não chorar, não ter cólica, a amiga que deixava a criança se esgoelando até dormir sozinha e te garante que em três dias vai funcionar pro resto da vida, a vó que fala que tu era assim, mas a sogra garante que era assado, cerveja preta produz mais leite (hahaha), e toda a sorte de baboseiras que tu e a tua mulher até podem tentar colocar em prática em algum momento de pânico. E eles acontecem, viu. Tente se acalmar.

Mas tem uma coisa que me incomodou mais que os palpites, principalmente quando ganhei a Nina. Foram 9 meses bacanudos, onde minha pancinha e eu éramos saudadas com amor e muito carinho por onde passávamos. Quando ela nasceu eu fui esquecida.

E doeu.

Veja, não sou mimada (tá, talvez um pouco), mas me senti muito mal com uma coisa que aconteceu ainda no hospital. A Nina foi pro quarto antes do que eu, e enquanto as enfermeiras me levavam, ouvi a bagunça no quarto. Todo mundo lá, claro, babando no bebê recém saído do forninho. Mas tinha uma pessoa (que por motivos de "não quero" não vou citar o nome) que estava fora do quarto. Fiquei feliz por alguém ter lembrado de mim, até ela dizer "Não dá pra entrar no quarto, tem muita gente, achei melhor esperar aqui".

BUÁÁÁÁ

Depois todas as fotos das famílias onde ninguém liga se tu tá inchada, escabelada, estranha. Eu não tive a sorte de nascer (e nem de parir e seguir) linda como a Kate Middleton. E a maioria das minhas amigas também não.





Ali começou meu sentimento de culpa: eu deveria estar muito (e só) feliz. Mas me sentia meio triste, um pouco abandonada. Ninguém lembrava de mim - exceto na hora de dar de mamar ou trocar as fraldas. Isso pode ser bem chato, em alguns casos perigoso até. Favor não esquecerem da mãe. Obrigada!

E é muito sério. Queridos amigos que estão a um passo de se tornarem papais: não esqueçam de amar e mimar MUITO as suas mulheres. Comprem flores, presentes (cuidem com chocolates que pode dar cólica no bebê!), mas acima de tudo: elogiem as suas mulheres. Sejam companheiros. Acordem junto, troquem fraldas, levem água pra elas durante a madrugada. Elas precisam de muito amor (e muita água, acredite em mim!) nessa época.

Depois que mandei esse recado pro meu amigo, a esposa dele me adicionou no Orkut. hehehe! Beijão, Mel.


Para finalizar, só posso desejar a todos um feliz dia dos pais!

terça-feira, 14 de julho de 2015

a pior mãe do mundo

sou eu, claro.
aquela que na noite gelada só levantou uma vez pra conferir se as gurias estavam cobertas, aquela que não trocou a fralda no primeiro xixi.

que comeu porcaria escondida na cozinha, que se trancou no banheiro pra tomar banho sem interrupções, que gritou um palavrão quando foi uma coisinha a toa.

aquela péssima mãe que contou uma historinha de meio minutos pra elas dormirem porque queria descansar também, e que na noite anterior dormiu antes das gurias - na cama da menor.

eu sou a mãe monga que quase deixou a mais velha cair do colo porque foi tirar a chave do bolso. que faz a caçula voltar a dormir pra poder terminar de escrever esse texto. mas agora.. não funcionou.

- - -
(continuação)
ontem. não funcionou ontem. e na noite de ontem, numa das acordadas em que não levantei pra ver as gurias - não tava frio, e com pesadelo a Oli veio sozinha pra minha cama, dormir com a cabeça no meu pescoço e os pés no pai, nos obrigando a dormir no cantinho-precipício da cama - fiquei pensando na minha trajetória de "pior mãe do mundo". talvez tenha sido exagero, porque sou libriana, portanto, exagerada (e não me venha com essa de que librianos são equilibrados porque isso é conversa de astrólogo fajuto, a balança nada mais é que o símbolo do signo, SÓ).
Pensei, matutei, refleti. e cheguei a conclusão que nesses quase dez anos que sou mãe - uau! quanto tempo! - fiz um monte de coisas que gostaria de mudar, mas tantas outras de que me orgulho e tenho certeza absoluta (de minutos) que estou no caminho certo. porque ser mãe é viver com a consciência pesada, se trabalha pra pagar alguém que não vai cuidar tão bem do teu filho quanto tu, mas podia ficar em casa e um dia ele vai crescer e eu não tenho como pagar as contas, etc etc etc. Culpa! Sentimento que nasce no mesmo dia do primeiro filho. Quase dez anos de culpa.
mas ontem a tarde sentamos juntas na mesinha delas pra brincar de massinha de modelar, fiz todos os bonecos que elas me pediram, guardamos e limpamos juntas a bagunça. depois da janta teve banho de banheira, e eu - a mãe-má-e-destrambelhada - coloquei mais espuma, brinquei e deixei molharem o banheiro todo, fiz bolinhas de sabão e cantamos bastante. foi divertido.
aí, na madrugada, me veio essa lembrança, tão recente, e outras tantas velhinhas (lembra, quase deeeeeeeeeeeeeez anos!!!) e cheguei a conclusão, librianamente, claro, de que nem sou assim uma mãe tão ruim.

sábado, 4 de abril de 2015

O que você vai ser quando você crescer

Madrugada de Páscoa, e eu arrumando o ninho do meu filho. Enquanto ele dorme em um colchão na sala, ao lado do ninho em que deixamos uma cenoura para o coelhinho trocar por chocolates, me empenho na árdua tentativa de compôr, com todas aquelas guloseimas pequenas que a pediatra recomendou, um quadro harmônico. Tarefa inglória, pois com certeza, passará desapercebida. Afinal, o que importa se o Kit Kat está ao lado do pacote de merendinha ou de MMs? Só um pensamento passará pela cabeça do meu pitoco: o coelhinho veio à sua casa, levou a cenoura e lhe deixou muitos bombons e chocolatinhos. E era exatamente para isso que eu estava ali, depois das 2 horas da manhã, tão empenhada em organizar aqueles doces, para ver sua euforia ao ver seu desejo se realizar.
Foi nesse momento em que lembrei de minha mãe... Por quantas vezes ela não teria perdido horas de sono do seu Sábado de Aleluia, para organizar tão cuidadosamente as cestinhas, que por anos a fio, encontramos embaixo de nossas camas, no Domingo de Páscoa? Quais eram suas expectativas, na mesma cozinha em que eu hoje monto o ninho do meu filho, pela reação que meu irmão e eu teríamos? Provavelmente as mesmas que eu tenho hoje, proporcionar este momento mágico aos filhos.
Porque, por mais que a gente diga que não antes, depois que somos mães, a gente se vê repetindo nossa mãe. Por mais que liste uma porção de razões, justificando com teorias mais modernas ou liberais, temos a mesma essência. Independente dos meios, os fins serão sempre os mesmos: criarmos esses momentos especiais aos filhos, na esperança de que eles fiquem para sempre em suas lembranças.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

EU DIZIA TANTA COISA...

Eu dizia que não iria jamais perder a paciência, como aquelas mães desnaturadas que xingam os filhos só porque eles correram na frente para atravessar a rua. Eu dizia que não permitiria que minha filha comesse bobagens antes das refeições e que ela deveria SEMPRE, sentar-se à mesa. Dizia que nunca agiria como aquelas mães esquizofrênicas que segurando um prato de comida correm pela casa implorando que a criança coma pelo menos uma colherada!!!!


Ah!!! Eu dizia que não iria deixar de ser mulher...Que não deixaria de arrumar o cabelo, nem de me maquiar. Salto alto? Por favor, né? Indispensável!! Dizia que minha vaidade era inabalável. Eu dizia que não sentiria culpa ao deixar minha cria para ir trabalhar e de vez em quando até, para passear...Dizia que o trabalho e o lazer eram tão importantes quanto ser mãe!!

EU DIZIA QUE NÃO, MAS AÍ VIREI MÃE e percebi que dizer não é muito simples...mas só quando nos imaginamos mães...a gente fala tanta coisa!!!!!



Eu dizia que não seria capaz de amar mais ninguém no mundo de forma tão sublime!!! É...PELO MENOS UMA EU ACERTEI!!!!!

sábado, 29 de novembro de 2014

Uma extensão de nós - parte 1

Tempos atrás um amigo, ao anunciar o nascimento da filha, escreveu: "ela é tão ela mesma!". Na hora achei muito fofis aquele jeito de fugir do lugar comum, que é a comparação com seus progenitores. Lembrei que sempre tive horror a essas comparações antes do meu pequeno nascer, e que teorizava pela individualidade do sujeito e blá, blá, blá. Mas daí virei mãe... E não tem jeito, mais cedo ou mais tarde, a gente se reconhece nos filhos!
Para mim o reconhecimento foi imediato!
No instante em que olhei para o Vicente, ainda preso ao cordão umbilical, sujo de sangue e nas mãos do médico, percebi que ele era a minha cara. Mais do que isso: ele tinha o mesmo nariz, envolto pelas mesmas bochechas que eu detestei por 33 anos, 11 meses e 28 dias!
E eu achei aquele rostinho que tinha tudo o que eu não gostava tão, tão, tão lindo que foi inevitável não me apaixonar.
Foi tão significativo aquele momento que o considero mais uma das lições que a maternidade me deu: através do meu filho pude enxergar em meus traços uma beleza que sozinha eu nunca tinha percebido.
Depois dele, me sinto mais segura e mais bonita. Hoje, me enche de vaidade ouvir de alguém, que nos vê pela primeira vez,  "como ele é parecido contigo!". Sermos parecidos me dá a certeza que tenho em mim a beleza que enxergo nele. Meu amor de mãe contaminou meu amor próprio!